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quinta-feira, 31 de agosto de 2023

Rafael Nolêto: entre textos, tintas e tesouras

Nascido em Teresina no fim da década de 1980, Rafael Nolêto possui uma produção artística diversificada, que passa pela música, escultura, literatura e artes visuais, Nos últimos anos, tem compartilhado uma intensa produção, voltada especialmente para as artes visuais e também pela literatura.

Em suas pinturas, segue o estilo “naïf”, explorando cenas ligadas à identidade piaga, com cores marcantes e traços simples. A palavra naïf é de origem francesa e significa “ingênuo”ou “inocente”, fazendo referência ao estilo de arte produzida por artistas autodidatas, que geralmente representam temas cotidianos e manifestações culturais. Este é o caso das pinturas de Rafael, que costuma retratar os folguedos, a natureza regional, as tradições, os mitos e o folclore brasileiro.

Oferenda ao Cabeça-de-Cuia (Pintura de Rafael Nolêto)

Além das pinturas, Rafael Nolêto também se diferencia pela produção dos recortes e colagens denominados “Wycinanki”. O termo de origem polonesa interpretado como “bordado em papel” denomina uma técnica popularizada a partir do século XVIII.

A técnica consiste basicamente na dobradura e recorte manual de papéis, formando imagens, que por sua vez são caracterizadas pela simetria e contraste. No Brasil, a técnica foi trazida pelos colonos poloneses e ucranianos, sendo mais encontrada em algumas regiões do Paraná; no Piauí, Nolêto tem sido um divulgador dessa forma de arte.

Colheita da Manga (Wycinanki de Rafael Nolêto)

Ferrinhos e Fogueira no Sertão (Wycinanki de Rafael Nolêto

Mulheres Rurais (Wycinanki de Rafael Nolêto

“Manipular o papel sempre foi algo bem comum pra mim, desde a infância, quando eu fiz os primeiros recortes, colagens e desenhos. Já adulto, retomei minha produção artística como forma de exaltar a espiritualidade, a identidade e as riquezas da minha terra.”, comenta Rafael.

Com pincéis, papéis, tesouras, estiletes e muita criatividade, o artista piauiense tem retratado a cultura regional com orgulho, tendo obras que já ultrapassaram as fronteiras do estado e também do país, estando presentes em países como Portugal, Itália e Estados Unidos. Além das pinturas e Wycinankis, Rafael também tem obras literárias, musicais e audiovisuais integrando o Movimento Piaga.



segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Um movimento que expressa a Magia do Lugar

 Em sua vertente artística, o Movimento Piaga reflete muitas das características comuns às identidades nordestina e piauiense, constituindo uma legítima forma de arte pagã, folclórica.

A palavra Pagã deriva do latim paganus e significa pessoa do pagus, ou seja, pessoa do campo. Um pagão é, deste modo, uma pessoa que conserva as tradições ancestrais e politeístas do campo. Particularmente, interpreto o termo pagão como “pessoa do lugar”, alguém que conserva as tradições do seu território de origem e da sua etnia. Considerando isso, os pagãos piagas – em suas manifestações artísticas– buscam preservar boa parte do legado artístico ancestral da região, agregando os saberes dos indígenas, dos europeus, dos africanos e de outros povos que contribuíram na formação cultural da região.

O Movimento Artístico Piaga não surge como uma “tábula rasa” ou “folha em branco”, ou seja, não surge como uma produção que é adotada na contemporaneidade isolada de um legado ancestral. Ao contrário disso, as produções deste movimento se afastam dos ideais da arte disruptiva contemporânea e buscam uma aproximação com as possibilidades de aproximar o homem da espiritualidade, da ancestralidade e da natureza. 

Nesta busca, as obras de arte piaga são produzidas a partir de matérias-primas comuns à região, como a palha, o couro, os papéis, os tecidos, a madeira e a argila, valorizando saberes ancestrais.

Além de prezar pelos modos de produção, técnicas e matérias primas regionais, o movimento piaga também busca a valorização identitária através da representação de mitos, personagens, história, paisagens e cenas do cotidiano local.

Pintura "Festa do Sol entre os Caneleiros", de Rafael Nolêto (2022)